20 de outubro de 2011

O FIM DAS BIBLIOTECAS

A tecnologia avança sem a menor preocupação com os obstáculos encontrados pela frente. Primeiro foi a fotocopiadora que possibilitou copiar partes ou o livro inteiro. Depois surge outra forma mais eficaz, a digitalização, que transforma qualquer tipo de papel em imagem digital.

É provável que tenha sido criada para facilitar o armazenamento de documentos em papel. Não faço à mínima ideia de como e por que a inventaram, mas o que sei é que a quantidade de informação gerada pelo homem é descomunal. Devido a tanto papel repleto de informação e pouco espaço físico para armazená-lo adequadamente, a digitalização ajudou na compactação dos arquivos e na liberação de mais espaços físico. Agora, toneladas de papéis são gravados digitalmente e armazenados em locais apropriados.

No caso do livro não foi diferente. Sua digitalização se tornou assunto recente nos noticiários. A discussão envolve os que são a favor e os que são contra a transformação das bibliotecas físicas em bibliotecas virtuais. Acredito que este seja um caminho sem volta. Mais cedo ou mais tarde o livro como o conhecemos deixara de existir.

A reflexão que faço a respeito da dependência do armazenamento digital é quanto a sua proteção, ela precisa ser planejada e muito bem protegida, pois caso ocorra uma pane no sistema tudo se perderá. Anos de trabalho para nada.

Um fato semelhante já aconteceu na história. Os papiros e os pergaminhos foram sendo deixados de ser usados a medida a impressão dos livros se popularizou. Provavelmente muita coisa se perdeu no processo. O responsável pelo avanço tecnológico foi Gutenberg. Sua invenção deu um novo conceito a forma de processar o conhecimento. Antes dele os copistas tinham papel de importância na propagação e preservação do conhecimento, mas com o advento da tipografia isso mudou. A profissão acabou assim como o monopólio da Igreja.

Voltando ao tempo moderno, penso que a ideia de digitalizar livro deve ter surgido por acaso e não por necessidade. Quando se percebeu o benefício da digitalização do livro, outras obras foram aplicadas ao mesmo processo. Perante praticidade, alguém teve a ideia de digitalizar as Bibliotecas. Tudo corria bem até alguém questionar a forma como o acesso e o manuseio desse material seria disponibilizado. Pronto! Estava implantada a discussão. Tem muita coisa em jogo por trás do tema que não cabe abordar aqui, mas que pode ser esclarecida com a leitura deste livro.


Pois então, enquanto escrevia e meditava sobre o assunto me ocorreu que um dia as bibliotecas deixarão de existir como conhecemos atualmente. Cheguei a essa conclusão enquanto olhava os livros da minha biblioteca. No futuro as elas caberão num pen drive ou na memória rígida de computador. Aquele glamour de ter uma biblioteca em casa como aquelas do Século XIX acabarão. E neste dia aparecerá algum historiador dizendo que os livros caíram no esquecimento assim com os pergaminhos e os papiros na época de Gutenberg.

23 de setembro de 2011

CALENDÁRIO RISCADO

Onde trabalho há uma colega que risca o calendário diariamente. Descobri isso hoje de manhã ao entrar na cozinha e presenca-la riscando a folhinha. Naquele momento não dei atenção, mas enquanto esperava o café ficar pronto a cena não saia da cabeça. Fiquei imaginando quais as hipóteses que a leva a marcar os dias. Depois de beber o café voltei aos meus afazeres e junto veio a imagem que havia acabado de presenciar. Não consegui me desvencilhar dela como fiz com o copo descartável.

Devido a sua companhia, indesejada por sinal, não consegui focar a atenção no serviço. Eu ali, sentado, a olhar a imensa pilha de papel ouvindo a ladainha da Divagação na minha cabeça: “calendário riscado, calendário riscado, calendário riscado...” diz pra mim, tem condição de se concentrar nalguma coisa? “É claro que não!” Respondeu prontamente e continuou a buzinar em minha orelha: “calendário riscado, calendario riscado, calendário riscado...” Como não havia outro jeito acabei por deixá-la dar vazão as ideias desconexas que sussurava no meu ouvido.

A primeira coisa foi: “Por que ela risca diariamente o calendário? Pra que marca os dias? Eu disse: “Deve ser por que esta esperado alguma data importante.” Ela respondeu: ”Como pode achar isso?!" Eu retruquei: “Ora essa! Por que mais seria?” e finalmente disse: “E eu que vou saber?! Ela é sua amiga. Vai lá e pergunta pra ela.” Não tive escolha a não ser ir perguntar.

Na conversa descobri que o motivo é para não perder tempo em procurar os dias no calendário. Me espantei tanto com a resposta que ela deve ter percebido o sinal de interrogação estampada no meu rosto. Frente ao meu espanto, reforçou sua justificativa dizendo que isso ajuda a não se atrapalhar com a rotina diária. Não adiantou nada, pois continuei sem compreender nada. Enquanto isso, a Divagação buzinava no meu ouvido. “Que diferença faz riscar ou não riscar o calendário?! Basta olhá-lo e ver o dia. É tão simples! De onde ela tirou essa ideia?” Respondi irritado: “E eu que vou saber?! É claro que não é comum. Cada um tem sua mania. A dela é essa! A minha é conversar com você. Será que agora posso voltar ao trabalho?”  Ela disse: “É claro que não! Ainda tenho outras coisa a esclarecer com você sobre isso!”

Respirei fundo para não dizer nenhum palavrão e voltei para a mesa. Sentei... olhei o Word e escrevi: “Todo dia o calendário é riscado. Mais dia ou menos dia todos seremos riscados desta vida, ou seja, morreremos sem... antes de terminar a frase a Divagação falou: “Nossa! Que pensamento morbido!” Respondi: “Qual o problema?!” Ela retrocou: “Nenhum, só acho que foste um pouco dramático.” Perdi a paciência e gritei: “Silêncio!!!”

E foi assim que passei quase a manhã inteira. Gastei o tempo entre pensar, discutir, conversar e olhar a pilha de papel sobre a mesa. Tentei retomar o assunto, mas foi em vão. De tudo isso só restou voltar ao trabalho e deixar o calendário riscado lá na cozinha. Mas uma coisa é certa. Realmente é estranho viver a vida riscando todo santo dia o calendário. A impressão que fica é a de que se está esperando algo importante que nunca virá.

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