2 de setembro de 2011

CIDADÃOZINHO


Parte I

Existia um cidadãozinho cansado de viver no meio dessa sociedade barulhenta. Um belo dia decidiu procurar algum lugar isolado e tranqüilo onde pudesse viver em paz. Buscou por muito tempo até finalmente achar o que procurava. Todo dia ia para lá. Ao chegar logo ia sentar numa pedra próxima a beirada do precipício que havia ali. Ficava por horas contemplando a vazio e ouvindo o silêncio a sua volta. Numa dessas idas e vinda achou melhor mudar de uma vez por todas para seu mais recente paraíso. Ele não quis mais saber da sociedade barulhenta. Só a procurava quando necessitava de alguma coisa. Foram anos maravilhosos, muita paz, sossego e tranqüilidade. Neste tempo solitário pode meditar, escrever e repensar o mundo. Mas infelizmente a calmaria foi quebrada. Um antigo amigo o seguido certo dia. Quando voltou a sociedade contou onde morava o cidadãozinho e mais vieram no seu encalço. Junto deles veio o barulho e a algazarra. A movimentação do vai e vem passou a incomodá-lo. Como a paz quebrada só lhe restou procurar um novo lugar isolado. Antes de partir sentou-se a sombra da goiabeira que havia em frente a casinha. Ficou ali a observando por horas. Pensou no tempo dedicado a deixá-la do jeito que queria. Ela foi construída com carinho e dedicação. Doía-lhe o coração por ter que abandoná-la. Foi com grande tristeza no coração que olhou a sua volta e viu a transformação que as pessoas causaram ao seu Éden. Não havia mais paz, não era mais possível ouvir o sussurro do silêncio e nem o canto dos pássaros. Até mesmo o vento lhe pareceu ter mudado seu sopro. Frente a tanta mudança sua alma não suportou a dor e num momento de desespero levantou-se e correu em direção ao precipício. Ele saltou para o vazio...

Parte II

A queda pareceu interminável. Enquanto voava para a morte relembrou os momentos mais marcantes da sua vida. No instante da melhor lembrança o impacto com o chão duro o trouxe de volta a realidade. Sentiu-se em pedaços, com um forte gosto de sangue na boca e muita dor. Tentou se mover, mas foi em vão. Antes de dar o último suspiro de vida vislumbrou algo luminoso se aproximando, só que não teve tempo de ver o que era, pois desmaiou. Algum tempo se passou, e quando voltou a si viu um ser luminoso a sua frente a observá-lo atentamente. Ele abaixou e tocou na sua cabeça. O alívio foi imediato. A dor sumiu completamente. Em seguida o ser luminoso sussurrou no seu ouvido: "Levante-se e venha comigo." Sem saber como, levantou-se e o seguiu. Caminhou atrás dele sem perceber quanto tempo estava no seu encalço. Num determinado ponto o ser luminoso parou, se virou e disse apontando com o dedo: "Siga o caminho a sua frente até o fim, lá encontrará o que procura." Nem mesmo terminou de falar e já desapareceu como fumaça no ar. Sem escolha só restava ao cidadãozinho se embrenhar pelo caminho indicado.


Parte III

Desde o dia que iniciou a caminhada indicada pelo ser luminoso não parou mais. Faz tempo que anda pela estrada. A sua volta só há silêncio. Ao parar para descansar caiu em si que até aquele momento não havia encontrado ninguém pela estrada. A única coisa que existia a sua volta eram plantas distorcidas e ressecadas. Um solo árido, seco e sem vida. Pensando nisso disse para si mesmo: “Que lugar é este? Por que fui obedecer aquele ser luminoso? Lá atrás vi uma bifurcação, bem que poderia ter ido noutra direção, mas não, escolhi essa. O que faço agora? Voltar não posso... não lembro como. Só tenho duas saídas. Ir em frente ou me sentar aqui e esperar alguém passar.” Em vez de continuar decidiu ficar onde estava. Sentou-se e permaneceu parado ali por anos a fio. Recentemente ouvi dizer que construiu uma casa na beira do caminho e continua lá a espera de alguém...

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