Lá ia eu despreocupadamente andando para o trabalho; ora olhando as vitrines das lojas, ora procurando alguma moeda perdida no chão, ora apreciando o vôo dos pardais, ora vendo os carros passarem por mim; enfim, fazia meu trajeto costumeiro quando um sujeito negro apareceu a minha frente. Ele surgiu numa virada de esquina. Toda a atenção dispensada às inutilidades se voltou para ele. Algo nele fez despertar pensamentos sobre as injustiças sociais e de como os indivíduos são daltônicos com relação a pessoas excluídas pela sociedade.
Olhei suas vestimentas surradas e sujas. No conjunto se resumia a uma bermuda, uma camiseta, um tênis e um boné. Em seguida reparei que caminhava meio cambaleante. Imaginei uma possível embriagues, mas olhando-o mais atentamente vi que não se tratava disso. O que o fazia cambalear era a carga que carregava nos ombros: o peso do preconceito, da injustiça e da desigualdade social fazia-no andar assim.
Enquanto o pensamento pensava sobre o sofrimento, os olhos vasculhavam o entorno em busca de outras inutilidades. Mas em vez disso o olhar encontrou uma senhora em pé no meio da calçada. Quando essa senhora o viu se aproximando abriu passagem meio receosa do que pudesse acontecer. Também fiquei apreensivo e esperando o pior, mas me enganei. Ele passou ao lado dela e seguiu seu caminho.
Alguns metros mais adiante outra senhora seguia seu caminho sem perceber a aproximação dele. Reparei que a idosa mancava um pouco. Isso a tornava uma vítima em potencial. Imaginei que por conta disso a primeira senhora teria sido deixada de lado em detrimento desta outra. O sujeito negro foi se aproximando dela e sem ao menos notá-la continuou seu caminho.
Nos dois momentos pensei que algo ruim pudesse ocorrer, mas me equivoquei em ambos os casos. Agi preconceituosamente ao pensar nisso. É claro que errei, mas convenhamos, quem no meu lugar não pensaria do mesmo jeito. Isso se deve a insegurança, o medo e o terror que vivenciamos a todo o momento dentro da sociedade. Vive-se num estado de alerta constante.
Refletindo a sombra da razão fui percebendo as incongruências dos medos e receios que carrego comigo. Olhei novamente, mas desta vez sem o véu do daltonismo e encontrei um sujeito sofrido e judiado pela vida. Desarmei o preconceito de mim e me armei de compaixão.
Pensei no frio e na fome que sente. Quando terá sido sua última refeição decente? E quando foi a última vez que dormiu numa cama confortável? Quantos outros não estarão em situação semelhante ou pior?
É revoltante ver cenas assim. A meu ver a maioria dos cidadãos sofre de daltonismo social. O daltônico é incapaz de perceber a diferença entre algumas cores. Já o daltônico social é incapaz de enxergar os inúmeros “sujeitos negros” espalhados por ai.
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